
O processo de psicoterapia possibilita uma série de ganhos. Conseguir se enxergar de uma maneira mais profunda, se descobrir em outros aspectos, mas também, e ainda mais interessante: possibilita criar novas formas de pensar, entender e agir com o mundo à nossa volta.
Antes de podermos falar sobre isso é importante esclarecer que existem várias abordagens em psicoterapia, seja dentro da psicologia e mesmo em outras vertentes que se propõe a dar conta da saúde mental.
Pois bem, meu viés de trabalho é de orientação psicanalítica. Nessa abordagem da psicanálise, trabalhamos com a escuta do inconsciente. Tal conceito é popularmente conhecido, possui muitos sentidos e é possível de ser entendido de diferentes formas.
Marion Minerbo, psicanalista, costuma tomar uma das várias nuances do inconsciente como a “criança-no-adulto”, que seria, em suas palavras, uma espécie de cicatriz viva da personalidade, testemunha de toda a histórias de traumas, angústias e dos mecanismos de defesas que tivemos que usar ao longo do nosso desenvolvimento psíquico.
Em nosso entendimento, o desenvolvimento da personalidade não é linear, ou seja, existem aspectos que vão amadurecendo, mas existem alguns pontos que ficam interrompidos. Por exemplo, uma criança que passou por um divórcio dos pais sem o devido acolhimento, que presenciou cenas de violência doméstica ou teve uma perda muito grande sem receber o devido amparo.
Tudo isso são excessos vividos sem que seja possível à criança elaborar o que se passa. Sabemos que a criança esquece a cena, mas a angústia que sentiu continua presente por anos, sem que fique claro o motivo.
Mediante tal contexto, o sujeito vai criando mecanismos de defesa que o ajudam a dar conta desses impasses e são úteis no momento da situação traumática, mas que acabam perdendo sua função anos mais tarde, porém seguem funcionando.
Então, isso que causa o sofrimento que o paciente sente, chamamos de sintoma. Porém, entendemos o sintoma de uma forma diferente do que é entendido na medicina: ele não é para ser extirpado e sim para ser entendido.
Mesmo as formas de vida mais problemáticas, que certamente produzem enorme sofrimento psíquico, precisam ser vistas como a melhor solução que o sujeito encontrou, com os recursos de que dispunha ao longo do seu desenvolvimento, para lidar com a vida e seus impasses.
Tais sintomas costumam trazer limites para a vida das pessoas. Agora, porque as pessoas têm dificuldade de se desfazer dos sintomas, mesmo quando é causa de sofrimento? Justamente porque se trata de um arranjo psíquico criado para a sobrevivência psíquica em algum momento da história da pessoa.
Nessa perspectiva de tratamento, a ideia é que seja possível voltar nessas zonas doloridas, machucadas e inconscientes, a fim de dar-lhes um novo sentido. Isso acontece através da escuta do inconsciente que aparece na fala do paciente.
Cabe dizer que não temos essas questões elaboradas em nossa mente. Já escutei, inúmeras vezes, de meus pacientes, a seguinte frase “hoje não tenho nada para falar”. Mas pasmem: nesses dias aparecem muitas questões importantes. Nós, terapeutas, sabemos fazer as perguntas decisivas para trilhar o caminho até chegar aos assuntos importantes.
Então, tem como se livrar de todos os sintomas? Não…eles são uma parte de nós. Mas a psicoterapia ajuda a ficar menos refém dos sintomas, propicia novas formas de lidar com eles. E mais, não só com os nossos, mas também com aqueles que amamos.
Pessoalmente, acredito que uma das principais relíquias de um passar por um tratamento é poder passar de uma leitura confusa sobre si e sobre os outros e conseguir viver de uma maneira mais autêntica, rica e tranquila.
O que é a psicanálise?
Freud descreveu o inconsciente como o depósito de desejos, pensamentos e memórias que se encontram abaixo da superfície da consciência. Para ele, eram essas influências inconscientes que, muitas vezes, podiam levar ao sofrimento psíquico e à inquietação.
Assim, a psicanálise analisa como a mente inconsciente influencia pensamentos e o comportamento. A experiência em psicoterapia, com muita frequência, envolve olhar para as experiências da primeira infância para entender como tais eventos podem ter moldado a pessoa, e como eles contribuem para as ações atuais.
Se tais conflitos não foram adequadamente trabalhados durante a infância, o indivíduo também pode voltar aos padrões da infância como adulto em situações semelhantes. Em outras palavras, a pessoa afetada então pode não resolver a situação atual de uma maneira madura, pois acontece um retorno aos sintomas infantis que não puderam ser resolvidos na infância.
Como funciona a psicanálise?
O psicoterapeuta de orientação psicanalítica normalmente passa algum tempo ouvindo os pacientes falarem sobre suas vidas, e é por isso que esse método é frequentemente chamado de “a cura pela fala”.
O psicólogo procurará identificar padrões ou eventos significativos que possam desempenhar um papel nas dificuldades atuais do seu paciente.
Nós, psicanalistas, acreditamos que os eventos da infância e os sentimentos, pensamentos e motivações inconscientes desempenham um papel na doença mental e nos comportamentos desadaptativos. Aqui, entende-se como comportamento desadaptativo um comportamento que atrapalha a vida do paciente. Mas mais do que isso, são atitudes que impedem o sujeito de crescer, de evoluir.
Quais questões podem ser tratadas pela psicanálise?
Muitas pessoas não sabem em quais casos é recomendada a psicanálise. No entanto, é uma terapia que visa principalmente neuroses, fobias, obsessões, problemas psicossomáticos, depressão, angústia, entre outros. Aqui separo algumas das condições mais comuns:
- Ansiedade – É um dos principais motivos de consulta.Seus sintomas são caracterizados por preocupação excessiva com as circunstâncias normais da vida. Também pode se manifestar com sintomas físicos, como sensação de sufocamento, palpitações, pressão no peito e inquietação.
- Síndrome do pânico – É uma variante do transtorno de ansiedade, com sintomas mais agudos.
- Fobia social – Consiste no aparecimento de ansiedade excessiva e patológica em diferentes situações de exposição social, como falar em público, conhecer novas pessoas, comer em locais públicos, etc. Seria como uma timidez excessiva que tem um impacto importante na vida da pessoa.
- Transtorno de estresse pós-traumático – Aparece como resposta a uma situação traumática, intensa o suficiente para colocar em risco a vida do paciente ou de outras pessoas. Como consequência, aciona-se uma série de mecanismos psicológicos que condicionam a vida do paciente, predominando a ansiedade e os comportamentos secundários de evitação.
- Depressão – Na linguagem comum, esta palavra é usada como sinônimo de tristeza. Deve-se distinguir entre a tristeza normal diante de uma situação, e a tristeza patológica, que impede o paciente de sentir prazer mesmo em situações favoráveis e com atividades que sempre lhe foram prazerosas.
A busca pelo tratamento na psicanálise
A cura na psicanálise envolve tornar conscientes os traumas reprimidos e as associações inconscientes de sentimentos e pensamentos. Compreender os conflitos internos do passado torna possível reagir bem às circunstâncias presentes.
É um tratamento que permite mergulhar na mente e ajudar o indivíduo a se conhecer. É um trabalho intenso, que exige dedicação e regularidade. Quando alguém busca ajuda psicológica, é porque está ansioso, deprimido ou angustiado, e não sabe o que está acontecendo consigo.
Se você entrou aqui, é bem provável que tenha algum tipo de problema pessoal que ache difícil ou impossível de resolver apenas com seus próprios meios. Traga seu caso e vamos conversar. Agende sua consulta. Saúde mental é qualidade de vida.